Terras raras e a Bahia
- Georges Humbert

- 22 de ago. de 2025
- 4 min de leitura
1. O que são terras raras?
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos da tabela periódica, incluindo o escândio, o ítrio e os 15 lantanídeos (como neodímio, praseodímio e disprósio). Apesar do nome, não são exatamente raros na crosta terrestre, mas sua extração e processamento são complexos e custosos, devido à baixa concentração nos depósitos e à dificuldade de separação. Esses elementos possuem propriedades únicas, como alta condutividade, magnetismo intenso e luminescência, que os tornam indispensáveis para tecnologias modernas.
2. Principais aplicações:
• Tecnologia de consumo: Smartphones, TVs, computadores, baterias e LEDs.
• Energia limpa: Ímãs para turbinas eólicas e motores de veículos elétricos.
• Indústria de defesa: Equipamentos militares, como caças, mísseis e radares.
• Medicina: Equipamentos de ressonância magnética e lasers cirúrgicos.
3. Importância geopolítica e econômica:
lAs terras raras são estratégicas para a transição energética e digital, com a China dominando cerca de 70% da produção global e 90% do refino. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial (cerca de 25%), com depósitos em estados como Amazonas, Goiás, Minas Gerais e na Elevação do Rio Grande, uma área submersa no Atlântico. No entanto, o país ainda enfrenta desafios técnicos e ambientais para explorar esse potencial plenamente.
4. Desafios e críticas:
• Resistência governamental: O governo brasileiro, especialmente Lula, defende que os minerais estratégicos pertencem ao povo e não devem ser explorados sem contrapartidas claras.
• Impactos ambientais: A extração de terras raras é poluente, exigindo cuidados para mitigar danos ao meio ambiente, o que aumenta os custos e pode gerar oposição.
• Concorrência e dependência tecnológica: O Brasil ainda carece de infraestrutura para refino em larga escala, e parcerias com empresas estrangeiras (muitas vezes chinesas) podem limitar a soberania sobre a cadeia produtiva.
5. O cenário na Bahia
A Bahia é considerada um estado promissor para a exploração de terras raras no Brasil, com grande potencial devido às suas reservas geológicas e aos investimentos em andamento. As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos essenciais para tecnologias de ponta, como baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores e equipamentos de defesa, sendo estratégicas para a transição energética e a indústria de alta tecnologia.
A) Reservas Geológicas Significativas: Estudos do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e outras instituições identificaram depósitos de terras raras em várias regiões do estado, como o Complexo Jequié, Ubaíra, Jiquiriçá, Prado, Alcobaça, Caravelas, Belmonte, Irecê, Caetité e Campo Alegre de Lourdes. Esses depósitos estão associados a minerais como bauxita e argilas iônicas, que contêm elementos como neodímio, praseodímio, lantânio, cério e ítrio.
B) Projetos em Andamento:
• Projeto Monte Alto (Borborema Mineração/Brazilian Rare Earths): Este projeto, nos municípios de Ubaíra e Jiquiriçá, prevê investimentos de R$ 3,5 bilhões em duas fases. A primeira fase, com R$ 500 milhões, focará na produção de concentrado mineral de óxidos de terras raras, com início previsto para 2028. A segunda fase, no Polo Industrial de Camaçari, envolve a separação de óxidos, com capacidade inicial de 15 mil toneladas/ano, expansível para 55 mil toneladas/ano até 2034. O projeto já emprega cerca de 200 pessoas e promete gerar até 800 empregos diretos na operação.
• Projeto Campo Grande (Equinox): Em Jequié, numa área de 1.755,2 km², a australiana Equinox está investindo cerca de R$ 10 milhões em estudos geológicos, geofísicos e geoquímicos para avaliar a viabilidade econômica de depósitos de argila iônica. A empresa planeja verticalizar a produção, separando e processando terras raras no estado.
• Energy Fuels: A multinacional americana adquiriu 17 direitos minerários nas regiões de Prado, Alcobaça e Caravelas, com foco em minerais como tório, lantânio e cério, cruciais para a transição energética.
• Depósitos de Monazita: No Extremo Sul, especialmente em Cumuruxatiba (Prado) e Alcobaça, há registros históricos de monazita, um mineral rico em terras raras, explorado desde o século XIX.
3. Interesse Internacional: A Bahia atrai empresas de países como Austrália, Estados Unidos e Canadá, interessadas em diversificar fornecedores de terras raras, reduzindo a dependência da China, que domina 80% da produção e 85% do refino global. A neutralidade geopolítica do Brasil e suas vastas reservas (21 milhões de toneladas, a segunda maior do mundo) tornam a Bahia um ponto estratégico.
C) Apoio Governamental e Infraestrutura:
O governo da Bahia, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), tem apoiado projetos, oferecendo suporte em licenciamento, infraestrutura e financiamento. Parcerias com instituições como o Senai Cimatec visam desenvolver tecnologia e capacitar mão de obra, fortalecendo a cadeia produtiva.
D) Pesquisas Acadêmicas:
A Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) lidera estudos sobre terras raras, identificando reservas e defendendo a criação de uma rede de pesquisa com instituições como UFBA, IFBA e Senai Cimatec. Essas iniciativas buscam transformar conhecimento científico em desenvolvimento econômico e tecnológico, com foco na agregação de valor.
E) Desafios
Apesar do potencial, a Bahia enfrenta obstáculos:
• Tecnologia de Separação: A extração e purificação de terras raras são processos complexos e caros, dominados pela China. O Brasil ainda exporta minério bruto, o que reduz o valor agregado.
• Impactos Ambientais: A mineração de terras raras pode causar contaminação e degradação, especialmente em ecossistemas como a caatinga. Há preocupações de ambientalistas e comunidades locais, com demandas por licenciamento rigoroso e transparência.
• Falta de Marco Regulatório: O Brasil carece de uma legislação específica para terras raras, operando sob o Código de Mineração de 1967, o que pode dificultar a regulamentação e atrair investimentos.
Oportunidades
• Cadeia Produtiva: A verticalização da produção, com refino e fabricação de produtos como ímãs permanentes na Bahia, pode aumentar o valor econômico e gerar empregos.
• Geopolítica: Com a crescente demanda global (de 240 mil toneladas em 2020 para 390 mil em 2024, com previsão de aumento de sete vezes até 2040), a Bahia pode se posicionar como um polo estratégico no mercado ocidental, atendendo a países como EUA, Alemanha, França e Japão.
• Desenvolvimento Regional: Projetos como o Monte Alto e Campo Grande podem impulsionar a economia local, com geração de empregos e infraestrutura em municípios como Ubaíra, Jiquiriçá e Jequié.





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